Relações entre os países, cadeias globais de produção e, em geral, a dinâmica da economia mundial: “muda-se o jogo” com as tarifas apresentadas por Donald Trump nesta quarta-feira (2), segundo especialistas ouvidos.
Para o médio e longo prazos discute-se a possibilidade de os Estados Unidos e o mundo serem abarcados por uma recessão. Mas no curto prazo já se vê como reverbera a política comercial do republicano: “[as tarifas] mudarão fundamentalmente o sistema de comércio internacional”, avaliou o economista e primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.
E é nesse sentido de os países rearranjarem suas conexões que deve ir a reação do mundo às tarifas, apontaram Christopher Garman, diretor-executivo da Eurasia Group, e Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice).
O ex-embaixador olha para a Ásia, onde, segundo ele, o inimaginável está acontecendo: Japão, China e Coreia do Sul — países historicamente apartados — estão buscando se aproximar política e economicamente para se fortalecerem ante as tarifas de Trump.
Com as tarifas recíprocas anunciadas pelo presidente dos EUA, a China vai ter de passar por uma tarifa média de 54% para colocar seus produtos em território norte-americano.
E para o Brasil, ao qual foi direcionado uma tarifa de 10%? “Muito cedo ainda, vai ter que aguardar a reação dos principais parceiros. […] O Brasil não pode reagir imediatamente, reagir ideologicamente, falar em retaliação. Tem que negociar”, pondera Barbosa.
“Do ponto de vista do comércio exterior brasileiro, precisa reavaliar o Mercosul, algumas tarifas e algumas medidas [protecionistas não tarifárias] para negociar”, pontua.
Para o presidente do Irice, ainda é necessário que o Brasil pense estrategicamente em relação à América Latina, buscando construir cadeias regionais de valor na sua zona de influência.
Garman vê essa como a tendência daqui para frente, de as regiões buscarem aproximar-se entre si.
“Seja politicamente ou do lado comercial, nós vamos ter o mundo começando a se relacionar mais num contexto em que os Estados Unidos levantam barreiras e não são mais vistos como confiáveis”, observou.




