Parlamentares consultados apontaram que o principal entrave para a tramitação da reforma do imposto de renda (IR) no Congresso Nacional é a compensação às perdas de arrecadação para estados e municípios.
A medida apresentada pelo governo ocasionará perdas arrecadatórias aos entes federativos, pois atualmente o IR pago pelos servidores públicos já é retido na fonte. Como boa parte desses trabalhadores ganha até R$ 5 mil, eles passariam a ser contemplados pela isenção proposta -enquanto os estados e municípios passariam a arrecadar menos.
A solução indicada pelo governo é um aumento no consumo com mais dinheiro na praça, em decorrência da cobrança de menos impostos. O secretário-especial da Receita, Robinson Barreirinhas, disse em entrevista como exemplo que as pessoas vão comprar mais em supermercados com o montante extra, o que será revertido em ICMS e ajudará os estados.
Cotado como um dos relatores do projeto na Câmara, o deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ) destacou que a falta de uma solução crível é o principal obstáculo para o avanço do projeto no Congresso.
“A federação é sócia no Imposto de Renda. Tanto na retenção da retenção (o imposto retido dos servidores e não repassado a União), quanto no repasse de quase 50% da arrecadação para os fundos de participação dos estados e municípios. E sócios compartilham a alegria e tristeza do ganho e perda de suas cotas. Como está o projeto, a União resolve o seu problema e dá uma banana para os estados e municípios”, destacou o deputado.
Pedro Paulo diz ainda que, apesar do projeto ser justo e oportuno, a carência das estimativas de impacto aos da medida aos estados e municípios faz com que cada ente federativo comece a anunciar sua própria estimativa de renúncia.
A Confederação Nacional dos Municípios (CNM) indicou que as cidades perderiam R$ 11,8 bilhões anualmente com a medida — sendo R$ 4,9 bilhões de IR de seus servidores e R$ 6,9 bilhões de repasses. Ainda não há cálculos divulgados por estados.
O governo de Pernambuco disse que terá uma queda de receita de R$ 1,4 bilhão em 2026, decorrente da perda de IRRF dos funcionários públicos, o que equivale a 56,6% de tudo o que o Estado arrecada anualmente com o IR retido na fonte desses trabalhadores.
O deputado federal José Nelto (União Brasil-GO), vice-líder do governo na Câmara, afirmou que a bancada do União Brasil vai buscar soluções para compensar os entes. Caso não haja medidas compensatórias críveis que sejam suficientes, o parlamentar defende a retirada da urgência do projeto.
“Nada foi apresentado, vamos trabalhar com a bancada do União Brasil para construir uma solução. A União não pode mais fazer desoneração fiscal e aumentar gasto para os municípios. Precisamos achar uma saída para atender os trabalhadores com o aumento da isenção, mas sem atingir os municípios, que têm que pagar contas. Se não tiver solução no governo ou no Congresso nesse momento, retira a urgência”, declarou.




