O presidente dos EUA, Donald Trump, agradou investidores globais com a possibilidade de redução nas tarifas sobre importações chinesas. Mas sua aparente disposição em reduzir a escalada da guerra comercial americana com a segunda maior economia do mundo foi descartada por autoridades governamentais na China e ridicularizada online como “covardia”.
Na terça-feira (22), Trump disse a repórteres no Salão Oval que as astronômicas tarifas sobre produtos chineses irão “diminuir substancialmente”.
Ele até prometeu evitar táticas agressivas, jurando ser “muito gentil” na mesa de negociações e se comprometeu a não mencionar as origens da pandemia de Covid-19.
Mas Pequim permaneceu impassível diante das propostas. Em vez disso, exigiu que Trump remova todas as tarifas sobre a China.
“Como diz o ditado: ‘quem amarrou o sino deve desamarrá-lo’”, disse He Yadong, porta-voz do Ministério do Comércio da China, a repórteres na quinta-feira (24).
“Os aumentos unilaterais de tarifas foram iniciados pelos EUA. Se os EUA realmente querem resolver a questão, devem ouvir as vozes racionais da comunidade internacional e de suas próprias partes domésticas interessadas, remover completamente todas as medidas tarifárias unilaterais contra a China e encontrar uma maneira de resolver as diferenças através do diálogo igualitário”, acrescentou.
Autoridades chinesas também negaram que os dois lados estejam conversando. Trump disse a repórteres na quarta-feira (23) que havia conversas diretas entre autoridades americanas e chinesas “todos os dias” sobre comércio, embora não tenha oferecido detalhes.
“São todas notícias falsas”, disse Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, na quinta-feira, quando questionado sobre as conversas.
“Pelo que sei, China e Estados Unidos não se envolveram em nenhuma consulta ou negociação sobre a questão tarifária, muito menos chegaram a algum acordo.”
Especialistas chineses que assessoram o governo veem a mudança retórica de Trump como uma rendição à pressão doméstica dos EUA e uma tentativa de acalmar os mercados. Eles acreditam que Pequim tem a vantagem e não tem pressa em fazer um acordo com Trump.
Wang Yiwei, diretor do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade Renmin, em Pequim, explicou que, após semanas de postura e mensagens contraditórias, as autoridades chinesas desconfiam de Trump.
“A pressão (sobre Trump) em casa está aumentando, e grande parte de suas mensagens atuais visa apaziguar preocupações domésticas”, disse ele, apontando para uma queda em Wall Street e preocupações com a inflação.
“Ele está ficando um pouco agitado agora. Mas a China não acredita em sua conversa sobre (reduzir substancialmente) as tarifas. Ele diz uma coisa hoje e outra amanhã, talvez as aumentando novamente no dia seguinte. Ele não é confiável.”
Wu Xinbo, diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan, em Xangai, disse que a China “não tem pressa” para conversar e está bem preparada para resistir à pressão econômica.
“Em vez de aceitar ofertas para conversar muito cedo, pode ser mais benéfico suportar um pouco de conflito primeiro — isso poderia tornar as negociações mais suaves e levar a resultados mais favoráveis para a China”, disse ele.
“Podemos esperar um pouco mais.”
Por meses, Pequim tem projetado uma imagem de força. Na semana passada, o líder chinês Xi Jinping visitou três países no Sudeste Asiático para reforçar a posição da China como parceiro político e econômico estável.
No entanto, a economia chinesa não é mais o colosso que já foi, e alguns especialistas dizem que Pequim eventualmente terá que negociar.
A mudança abrupta no tom de Trump em relação à China veio um dia depois de ele se reunir em particular com executivos-chefes de quatro grandes varejistas americanas — Walmart, Target, Home Depot e Lowe”s — que expressaram preocupação com o crescente impacto econômico de sua política tarifária e a incerteza que criou para os mercados financeiros.
Muitos grandes bancos de investimento previram que as tarifas massivas, assim como as tarifas retaliatórias de 125% da China sobre produtos americanos, mergulhariam as economias dos EUA e global em uma recessão.
E embora o presidente não tenha quantificado o que significa por um corte substancial de tarifas, um alto funcionário da Casa Branca disse separadamente ao Wall Street Journal que as atuais tarifas de 145% sobre a China poderiam cair para “entre aproximadamente 50% e 65%.”
Mas Wang, da Universidade Renmin, que atualmente está viajando em Washington e conversando com analistas americanos, disse que reduzir as tarifas para esse nível não é suficiente para fazer a China negociar.
“Se você realmente quer negociar seriamente com a China, então deve cancelar primeiro todas essas tarifas infundadas e depois voltar à mesa”, disse ele, acrescentando que Trump está tentando “provocar” Pequim para as negociações.
“Se você ligar para ele agora e mostrar qualquer sinal de fraqueza, ele pensará que sua tática está funcionando — e redobrará”, acrescentou.
“Da perspectiva da China, eu colocaria desta forma: A guerra comercial foi iniciada pelos EUA, mas se haverá negociação depende da China — quando conversar e sobre o que conversar será decidido pela China”, disse ele.
A notícia de que a administração Trump estava considerando reduzir as tarifas foi amplamente ridicularizada nas redes sociais chinesas, onde os usuários zombaram do líder americano em uma onda de orgulho nacional.
Na quarta-feira, a hashtag “Trump amarelou” estava em alta como um dos principais tópicos na plataforma de mídia social Weibo, acumulando mais de 150 milhões de visualizações. Uma hashtag relacionada sobre o possível plano de reduzir as tarifas para entre 50% e 65% também foi muito lida na quinta-feira.
“Nosso lado diz que não nos importamos com isso!”, escreveu um usuário em um comentário que recebeu mais de 1.000 curtidas.
Outro disse: “Se as chamadas tarifas recíprocas nem forem canceladas — nem se preocupem em negociar com eles!”
Esta posição linha-dura comumente ouvida é um eco das respostas públicas da China. Mas apesar da postura oficial de Pequim, alguns especialistas chineses questionam a sabedoria de um confronto prolongado com Washington.
Falando sob condição de anonimato, um especialista em política externa da China disse estar preocupado com o impacto das altíssimas tarifas na economia já lenta do país.




