Muito se falou sobre o sucesso de “Ainda Estou Aqui”. Em geral, explicações sociológicas, como dizer que o golpe fracassado despertou a discussão sobre a ditadura.
No entanto, o alcance internacional do filme, inclusive em democracias centenárias como a Inglaterra, indica como essa explicação é insuficiente. Claro que se pode dizer que a polarização e a ameaça de uma virada autocrática estão em pauta no mundo todo… Mas acho que antes de mais nada temos que dar valor ao mérito artístico do filme. Roteiro, direção de arte, fotografia, música e elenco entregam um trabalho excepcional. Coordenar tantos talentos para alcançar tal resultado já demonstra a maestria de Walter Salles.
Mas eu diria que ele é um diretor corajoso. O roteiro do filme não é nada banal. Pelo contrário, nega diversas receitas de sucesso que pautam os blockbusters, sejam eles americanos, japoneses, coreanos, indianos ou chineses. Dizem que, para captar o interesse do espectador, é preciso ter uma ação logo no início do filme. Quando não já nos primeiros 5 minutos! E o protagonista tem que fazer uma escolha decisiva no máximo até os primeiros 30 minutos. Nada disso acontece em “Ainda Estou Aqui”.
Na primeira parte ficamos vendo a felicidade daquela família e sentimos a ameaça da ditadura, mas não há nenhuma ação dramática, só descrições. Rubens Paiva é preso aos 32 minutos e temos a primeira ação, mas não da protagonista, e sim do vilão, a ditadura. Eunice só vai mesmo agir uma hora depois, quando vende o terreno e se muda para São Paulo. E as cenas de São Paulo são novamente descritivas.
Ela tem sua luta reconhecida, mas não vemos todo o processo, não a vemos agindo. Todo manual de dramaturgia repete o mesmo mantra: o personagem tem que ser ativo. Então, como um filme tão a contrapelo consegue arrebatar o mundo inteiro? Acho que é pela tessitura emocional.
Antes da prisão de Rubens Paiva, sabemos que a felicidade daquela familia vai ser abatida por uma catástrofe. Ficamos interessados pela textura da recriação de época e absortos pelo suspense a espera da prisão. Nos compadecemos por Eunice, porque ela ignora o destino que a aguarda. Por isso é importante a sua distancia em relação à militância contra a ditadura. Ela é completamente inocente.
Depois da prisão, durante uma hora, acompanhamos a protagonista ganhando consciência de sua situação. De novo, ela não age de modo a alterar seu destino, apenas indaga e sofre. Até chegarmos na cena da sorveteria, que para mim é o climax do filme. Nesse momento, ela se dá conta que a ausência do marido jamais será preenchida e que ela precisa tomar conta de si e da família. A vida segue como sempre para o resto do país, mas Eunice jamais vai recuperar a inocência do passado. A lacuna que se abriu não pode ser preenchida. Agora ela precisa agir e toma a decisão de mudar para São Paulo. O sofrimento de um personagem inocente talvez seja o gatilho emocional mais intenso a disposição da ficção.




