Estamos numa era de polarização afetiva, diz cientista político ao WW

Estamos numa era de polarização afetiva, diz cientista político ao WW

A política global passa por uma transformação significativa, marcada pelo fenômeno da polarização afetiva.

Esta é a análise do cientista político e professor de Relações Internacionais, Heni Ozi Cukier, que destaca como a identidade e a emoção têm se tornado fatores dominantes no cenário político mundial.

Segundo Cukier, a era atual é caracterizada por uma política baseada na identidade, em que o raciocínio e as posições ideológicas cedem lugar a conexões emocionais com grupos e indivíduos.

“Nós estamos numa era de polarização afetiva, ou seja, a política é feita na política identitária, na base de identidade, em que você não raciocina, não são posições, não é nem ideologia, é o que conecta com você, com a sua pessoa, com o seu grupo, quem você é”, explica o professor.

O cientista político ilustra esse fenômeno com exemplos recentes, como declarações semelhantes feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ex-presidente americano Donald Trump sobre a guerra na Ucrânia.

Apesar de terem posições políticas opostas, ambos atribuíram culpa ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pelo conflito. Cukier observa que a reação do público a essas declarações varia de acordo com quem as profere, não com o conteúdo em si. “Porque não importa o que é dito, importa quem diz”, afirma.

Para o professor, esta onda de política emocional não se limita aos Estados Unidos, mas se estende globalmente. No entanto, ele ressalta que os efeitos são particularmente significativos nos EUA devido à sua posição como potência mundial.

“É óbvio que lá os efeitos são muito grandes porque é a maior potência do mundo, é o líder da economia, a maior potência militar”, destaca.

Cukier também analisa o perfil de Donald Trump, destacando como sua habilidade em construir uma marca pessoal se traduz em sua atuação política.

“O Trump é um empresário que construiu uma marca baseada na sua imagem, que para a política isso seria equivalente a construir um grande movimento político, um MAGA da vida”, observa.

O professor conclui que o fenômeno da polarização afetiva está intimamente ligado à capacidade de figuras como Trump de criar personas públicas fortes. Esta dinâmica, segundo ele, está moldando o cenário político global de maneiras sem precedentes, desafiando as noções tradicionais de debate político baseado em ideias e políticas concretas.

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